Vovô Natalino

No lugar do gorro vermelho e branco, um chapéu de couro. O trenó e a rena cedem a vez para uma carroça e um burro. O Papai Noel, aqui em Goiana, foi batizado Vovô Natalino, abandonou os traços originais e se travestiu de tons nordestinos. O personagem criado pelo artista plástico e patrimônio vivo de Pernambuco Zé do Carmo fuma cachimbo e balança o sino para chamar as crianças. Elas correm para perto do afeto doado pela figura não convencional do bom velhinho. O intérprete do personagem foge completamente da imagem popularizada do Noel. Sérgio Costa (Serginho da Burra), há sete anos encena o Vovô com seu porte longilíneo e desengonçado que empresta alegria à versão nordestina do mito de Natal. Todo ano, dia 28 de dezembro, Sérgio abandona sua identidade para montar na carroça com destino certo: comunidades carentes como São Lourenço, Balde do Rio, Impoeira e Carne de Vaca. Os brinquedos, doados pela reserva ecológica Aparauá e a SBP Entretenimento, vão a bordo e estão em sintonia com a proposta regional do personagem: bola de gude, pião, mané-gostoso, reco-reco e etc. A idéia é entregar brinquedos populares para valorizar a produção dos artesãos locais. A indumentária improvisada do Vovô Natalino também inclui alpercata de couro, cajado e um saco de estopa. Símbolos que remetem à vida simples do interior. Vez por outra Sérgio sente a ponta da camisa ser repuxada por uma criança querendo saber os porquês da carroça, do burro e da roupa, hoje composta por calça marrom e camisa de algodão rústico. “Explico que sou primo do Papai Noel e que venho do Sertão”. Eles entendem, aprovam e ainda aprendem sobre a obra de Zé do Carmo. Para finalizar a performance, o Vovô solta a barba longa artificial e entrega a uma criança. Deixa um pedaço de si nas mãos de quem sabe que a essência do Natal transcende padrões estéticos.


Sem chaminé, sem meia na janela, sem árvore de natal. Acredita que talvez por isto, acordou sem presentes, que foi em vão esperar pra ver o homem de roupa vermelha chegar de trenó. Vai à praça. Vê os meninos jogarem bola, olha para Igreje e faz a sua prece. Não do jeito dos adultos, falando sempre as mesmas palavras. Pede um sinal e escuta o tilintar de um sino. Era outro homem, de percatas, gibão, sotaque forte, em cima de uma carroça carregada de presentes puxada por um jumento. Durou apenas um sorriso para ter sua fé novamente restaurada.